Platônico
Augusto Novaes, o Gutinho Biriba. Pense num moleque espoleta, uma força da natureza, um demônio da tasmânia, um ciclone tropical ou, como diria o ex-ministro Magri, um moleque imparável. Gutinho Biriba não dava sossego nem durante o sono. Portador de sonambulismo, não houve uma só madrugada em que os pais de Gutinho Biriba não tivessem que resgatá-lo do telhado ou da casa do vizinho. A vó, dona Heloísa, dizia que aquilo era caso de exorcismo e até já havia solicitado ao padre Tadeu uma interlocução com o Vaticano. Na escola, Gutinho Biriba era figura carimbada na direção. Não havia um só dia em que os professores não registrassem ocorrências envolvendo o moleque e suas peripécias. Dona Sueli, professora de matemática, entrou com processo na delegacia de ensino requerendo adicional de insalubridade. Seu Rubem, o professor de educação física, sugeriu camisa de força. O único que punha Gutinho Biriba em estado de inanição era o tio Jorge. Gutinho Biriba adorava escutar as histórias do tio e, quando com ele, passava horas sentado com olhar absorto ouvindo o tio falar sobre suas façanhas. O que ninguém sabia era que tio Jorge batizava o refresco do moleque com calmantes tarja preta que ele conseguia com o Tonho da farmácia. Gutinho Biriba, morreu aos 16 anos. Foi numa tarde de dezembro, já em férias escolares. O tio Jorge chamou Gutinho Biriba para uma viagem até Jucupira do Norte, cidade onde tio Jorge tinha nascido. Vale mencionar que tio Jorge não era tio de fato, mas de consideração. Amigo da família. Em Jucupira, Gutinho Biriba conheceu Dora. E por Dora, Augusto Novaes deixou de ser Gutinho Biriba. A espoleta falhou, a natureza acalmou-se, o demônio da tasmânia agora era um anjo, o ciclone agora não passava de uma suave brisa da manhã. Contrariando o ex-ministro, a verve do moleque dissipou-se diante de uma súbita paixão: Dora. Aos 16 anos, Gutinho Biriba morreu. Transformou-se em apelido de infância. Augusto Novaes era uma nova pessoa. Voltou de Jucupira irreconhecível. Dona Helíosa, a vó, tinha certeza que tio Jorge era um infiltrado do Vaticano e que a ida para Jucupira foi pretexto para o bem sucedido exorcismo. Os pais não criam que as madrugadas transcorriam serenas. Augusto Novaes só pensava em Dora. Respirava Dora. Escrevia Dora nos cadernos, nas paredes. Para Seu Rubem, o moleque foi de 8 a 80. Bom, de 80 a 8 para ser mais preciso. A inquietação deu lugar à indiferença. Dona Sueli temeu perder o adicional, que a essa altura do campeonato já estava comprometido no crediário. Para o Jonas, professor de Filosofia, o aluno foi do mundo sensível ao mundo das ideias numa viagem só de ida. Ao ver Augusto Novaes sentado num dos bancos no intervalo, tocou-lhe o ombro e disse baixinho: Platão esteja convosco.

