Tudo mato
Eu chamo de mato, mas de certo que os botânicos devem ter um nome mais bonito para cada uma daquelas touceiras.
Apesar do concreto e do asfalto, o mato encontra um espaço para crescer. Sim, aquele mato que vai nascendo no cantinho da calçada, entre a guia e a rua. Eu chamo de mato, mas de certo que os botânicos devem ter um nome mais bonito para cada uma daquelas touceiras. São de variedades diferentes, isso eu consigo identificar. Umas tem até florzinha mas, no fim do dia é tudo mato.
Mato que cresce no canto da parede e no rebaixado da garagem. E para a minha sorte, a casa é de esquina, então o mato não ocupa apenas a fachada, mas toda a extensão lateral da casa. São quase 40 metros de mato linear. A vizinha do lado limpou o dela, desmatou a fachada. O vizinho da frente deu sorte, o matagal não aflorou por lá.
Antes vinha um menino se oferecer para limpar o mato. Quinze real, ele pedia. E eu pagava com gosto, o moleque era o terror do matinho de calçada. Quinzão, um saco de lixo e num piscar de olhos, tchau sujeira, tchau matinho de calçada. Mas o menino sumiu!
Quando o mato tava ainda jovem, rasteirinho, eu olhava para ele e pensava, amanhã o menino passa ai, toca a campainha, pede os quinze conto e voilá, no more mato! Mas o menino sumiu. E o tempo passou. E o mato cresceu. Cresceu tanto que ficou maior que a minha falta de vergonha na cara. Se o menino não vem tirar o mato, então o mato vai... não, acho que não vai dar pra fazer esse trocadilho.
Bom, o fato, meu amigo, minha amiga, é que eu, domingão de manhã, fui arrancar o mato eu mesmo. A primeira touceira foi fácil, um puxão bem dado e puf. A segunda também não ofereceu muita resistência, mas junto com a touceira veio um bicho com mais patas que eu gostaria. Fraquejei, admito. Soltei a touceira junto com um brado agudo.
Entrei em casa e voltei com umas luvas de látex que a Aline usava para pintar o cabelo. A terceira touceira foi guerreira, não saia de jeito nenhum. Firmei os pés na calçada e segurei a dita cuja com as duas mãos. Dou-lhe uma. Dou-lhe duas. Dou-lhe três. A força foi tanta que eu caí de bunda no chão. Bem na hora que o farol de logo em frente estava fechado e a fila de carros pode se divertir com o paspalho aqui dando um twist carpado com uma touceira de mato em cada mão.
Pensei comigo, que neanderthal! Voltei para casa, fucei as gavetas e encontrei um artefato para me auxiliar na tarefa de remover o mato, a saber, uma espátula de massa corrida. Genial. Duas futucadas com a espátula na base da touceira, um firme puxão e tchau matinho safado. E assim fui, suando que nem um porco no sol das dez da manhã.
Para meu espanto, enchi três sacos de lixo de 60 litros cada com a floresta amazônica que circundava a calçada de casa. Os bebuns do bairro só na espreita, rindo das minhas luvas de látex. Levei os sacos de lixo para o contêiner que fica do outro lado da rua e, de lá, pude apreciar a concretude asfáltica da fachada de casa sem um matinho sequer.
Enquanto escrevo isto, meu ombro dói, minha bunda dói, minhas articulações doem. É bom que no mês que vem o menino dê as caras! Vou dizer, toma aqui seus quinze conto e mais quinze pra não desaparecer.
Arrancar mato? Tenho saúde pra isso não...


Cara, que leitura divertida!!! Obrigada ❤️